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ED 012

A chave que chega oito meses depois do martelo

O lance quitado entrega uma carta, não a porta: a imissão na posse corre em mandado próprio, com prazo do ocupante e oficial de justiça.

A porta fechada de um apartamento vista do corredor, com um molho de chaves novo pendurado na fechadura pelo lado de fora, sem pessoas

A porta que a carta ainda não abre

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Existe um intervalo na arrematação que nenhuma planilha de leilão costuma reservar linha: o tempo entre o dinheiro sair da conta do arrematante e a porta do imóvel abrir para ele. Em vara cível de capital esse intervalo tem passado de seis meses com frequência.

O engano nasce de uma leitura razoável do processo. Quem paga o lance, recolhe o imposto de transmissão e recebe a carta de arrematação registrada acredita ter concluído a compra, porque virou dono na matrícula. Virou mesmo, e continua sem entrar.

Propriedade e posse viajam em documentos diferentes. A carta transfere a titularidade e resolve o cartório de registro de imóveis. A entrada física depende de outro ato, expedido pelo mesmo juiz, cumprido por oficial de justiça e endereçado a quem estiver morando lá dentro.

Esse ato tem nome, artigo e rito próprios. Chama-se mandado de imissão na posse, nasce do parágrafo 2º do artigo 901 do Código de Processo Civil e vale contra qualquer ocupante do imóvel, seja o antigo proprietário executado, um parente dele, um comodatário sem contrato ou alguém que ocupou o lugar durante o processo.

O rito parece simples no papel e demora na prática. O arrematante pede a expedição do mandado, o cartório da vara expede, o oficial de justiça intima o ocupante e concede prazo para saída voluntária, e só depois do prazo vencido volta para desocupar com apoio, às vezes com força policial requisitada em decisão separada.

Cada uma dessas etapas tem fila. E a fila corre com o imóvel ainda ocupado, gerando despesa mensal no nome novo da matrícula desde o dia da arrematação.

O ponto cego mora justamente aí. Condomínio, IPTU e o aluguel que o imóvel deixa de render viram custo do arrematante muito antes de ele ter a chave na mão, e ninguém desconta esse período do lance na hora de decidir quanto pagar.

O lote de hoje é um apartamento com morador dentro, arrematado por menos da metade da avaliação, e a conta completa dos oito meses que separaram o martelo da mudança. Veja o que o edital, os autos e a certidão do condomínio precisavam dizer antes do lance.

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I  Edital do Dia

O apartamento de Contagem com morador dentro

A carta registrada resolve a matrícula, não a fechadura.

Apartamento de 68 m² em condomínio de quatro blocos, dois quartos, uma vaga coberta, bairro residencial em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Avaliação judicial em R$ 320.000, primeira praça deserta, segunda praça arrematada em R$ 168.000, cerca de 52% do valor de avaliação.

Ocupada ou Livre? Ocupada pelo executado e pela família dele, sem qualquer contrato registrado na matrícula. O edital trazia a linha padrão, imóvel ocupado, desocupação por conta do arrematante, e nada além.

A carta de arrematação saiu quarenta e dois dias depois do pagamento. Registrada, o apartamento passou a constar em nome do arrematante na matrícula do cartório de imóveis. A família continuou morando lá, com as mesmas chaves de sempre.

Nesse ponto muita gente tenta o caminho curto. Vai até o imóvel, mostra a carta registrada e pede a saída, ou procura a administradora para trocar a fechadura. Nenhuma dessas duas coisas produz posse legítima, e a segunda produz processo contra quem arrematou.

A entrada tem uma porta processual só, e ela está escrita em uma linha do Código de Processo Civil.

A ordem de entrega do bem móvel ou o mandado de imissão na posse do imóvel será expedido depois de efetuado o depósito ou prestadas as garantias pelo arrematante, conforme o caso.

Código de Processo Civil, sobre a arrematação, artigo 901, parágrafo 2º, 2015

Repare no alcance da frase. Ela não fala em executado, em locatário ou em invasor. Fala em imissão na posse do imóvel, o que significa que o mandado vale contra quem estiver ocupando, independentemente do título que essa pessoa alegue ter.

A consequência prática é boa para o arrematante e ruim para a agenda dele. Boa porque dispensa ação nova: o pedido é feito nos próprios autos da execução, sem citação, sem nova distribuição e sem custas de processo autônomo.

Ruim porque um pedido dentro de execução entra na fila do gabinete como qualquer outro. Ele espera conclusão, decisão, expedição pelo cartório da vara e distribuição para a central de mandados, que tem fila própria por região.

No apartamento de Contagem o pedido foi protocolado no mesmo dia do registro da carta. A decisão determinando a expedição saiu em trinta e um dias. O mandado chegou às mãos do oficial de justiça em mais vinte e seis.

O oficial cumpriu a primeira diligência e fez o que o rito manda: intimou o ocupante e assinou prazo para saída voluntária, prazo que costuma ficar entre quinze e trinta dias conforme a vara e a composição da família.

Vencido o prazo sem desocupação, veio a segunda diligência. O ocupante ainda estava lá, o oficial certificou a resistência e o arrematante precisou pedir reforço policial, decisão que a vara analisou em separado e levou mais quarenta e dois dias para conceder.

A desocupação com apoio policial aconteceu no oitavo mês contado do pagamento do lance. A família fez a mudança sem danos relevantes, e a chave mudou de mão no prazo que o oficial deu para a retirada dos móveis.

 
 

II  A Conta da Chave

R$ 21.240 de espera em oito meses

O apartamento custou R$ 168.000 no martelo e mais R$ 21.240 até a porta abrir. A espera pesou 12,6% sobre o lance, e nenhum centavo dela aparece no edital.

A primeira despesa começa a correr no dia da arrematação e não pergunta quem está dentro. O condomínio é obrigação que acompanha a unidade, e a partir do auto assinado o responsável pelo pagamento é o novo proprietário.

O IPTU segue a mesma lógica de recorte no tempo. A dívida anterior à arrematação sub-roga no preço depositado, mas o imposto do período posterior é do arrematante, com o imóvel ocupado ou vazio.

A terceira linha não sai de boleto nenhum e é a maior das três. Enquanto o apartamento tem morador antigo dentro, ele não pode ser alugado nem vendido com posse livre, e o aluguel de mercado da unidade fica no papel.

A conta dos oito meses, item por item:

Condomínio, R$ 780 por mêsR$ 6.240
IPTU proporcional, R$ 2.100 por anoR$ 1.400
Aluguel de mercado não realizado, R$ 1.700 por mêsR$ 13.600
Total do períodoR$ 21.240

Some ao lance e o apartamento sai por R$ 189.240 antes de comissão, imposto de transmissão e registro. Contra uma avaliação judicial de R$ 320.000 o negócio segue bom, e é exatamente por seguir bom que a conta some das planilhas.

Existe uma quarta linha, e ela é a única com chance de voltar. Os valores gastos com condomínio e IPTU no período de ocupação indevida podem ser cobrados do ocupante em ação própria, junto com o arbitramento de aluguel pelo tempo em que ele usou imóvel alheio.

O caminho é real e demorado. Ação de indenização contra quem morava lá, com honorários e tempo de instrução, contra um devedor que costuma estar sem patrimônio. Sentença favorável nem sempre vira dinheiro.

Por isso a decisão inteligente é anterior ao lance, e é uma decisão de preço. O prazo de imissão vira número quando você mede três coisas antes de dar o lance: o valor mensal do condomínio, a estimativa do aluguel de mercado da unidade e o tempo médio que a vara daquela comarca leva entre o pedido e o cumprimento.

Com os três em mãos, o cálculo é uma linha. Condomínio somado ao aluguel estimado, multiplicado pelos meses de fila esperados, define o teto de lance que preserva a margem que você quer.

No apartamento de Contagem esse cálculo daria R$ 2.480 por mês de espera. Oito meses de fila, R$ 19.840 previstos, número que o arrematante teria descontado do lance máximo se tivesse feito a conta antes do pregão.

Existe ainda uma saída que encurta a fila e custa dinheiro na mesa. Muitos arrematantes negociam a saída voluntária com o ocupante, oferecendo prazo confortável e uma quantia para mudança, formalizada em acordo homologado nos autos.

O valor típico dessa negociação fica entre um e três aluguéis de mercado da unidade. Em Contagem seriam R$ 5.100 no cenário mais caro, contra R$ 21.240 de espera judicial. O acordo é quase sempre mais barato que a fila, e quase nunca é tentado.

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III  Garimpo Local

As quatro linhas antes de contar com a posse

1. A linha do edital que descreve a situação de ocupação do imóvel. Ela diz se o bem está livre, ocupado pelo executado ou ocupado por terceiro, e às vezes traz o número de moradores. Edital omisso pede consulta aos autos, porque a diferença entre livre e ocupado muda o teto do seu lance.

2. O tempo médio entre pedido e cumprimento do mandado naquela vara. Consulte o andamento de execuções já finalizadas na mesma comarca e conte os dias entre a decisão de expedição e a certidão de cumprimento. Comarca de interior costuma ser mais rápida que capital, e o número muda o custo da espera.

3. A certidão de débitos do condomínio, com o valor da cota mensal atual. Ela mostra a dívida anterior, que sub-roga no preço, e o valor corrente da cota, que passa a ser seu no dia do martelo. A cota mensal multiplicada pelos meses de fila é a parte mais previsível de toda a conta.

4. O aluguel de mercado de uma unidade parecida no mesmo condomínio. Duas ou três ofertas ativas de imóveis semelhantes bastam para a estimativa. Esse número mede o que a espera custa em receita não realizada e costuma ser maior que o condomínio e o imposto somados.

As quatro linhas se leem antes do lance, não depois. Elas não mudam a qualidade do imóvel nem a segurança jurídica da arrematação, mudam apenas o valor máximo que faz sentido oferecer por um bem que você ainda vai levar meses para ocupar.

Depois do martelo restam duas decisões práticas. A primeira é protocolar o pedido de imissão junto com o registro da carta, sem esperar, porque a fila começa a correr na data do protocolo.

A segunda é abrir a conversa de acordo com o ocupante na mesma semana. Prazo generoso e ajuda de mudança são baratos perto de oito meses de condomínio, imposto e aluguel parado, e o acordo homologado nos autos tem a mesma força do mandado cumprido.

Arrematar é comprar um documento. Morar, alugar ou revender é comprar um prazo, e o prazo tem preço mensal desde o martelo.

"Você calcularia o custo mensal de espera antes de decidir o valor do seu lance?"

 
 
Quiz da edição

No apartamento de hoje, qual ato judicial autoriza a entrada do arrematante no imóvel ocupado?

AA carta de arrematação registrada no cartório de imóveis
BO mandado de imissão na posse expedido nos autos da execução
CO auto de arrematação assinado por juiz e leiloeiro
DA certidão negativa de débitos do condomínio

Defenda seu título de Vigia (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

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