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ED 041
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A taxa de ocupação que rendeu R$ 27.440

O artigo 37-A da Lei 9.514 cobra 1% do valor do imóvel por mês de quem continua morando no bem já retomado.

Porta de apartamento entreaberta com aviso de intimação no batente, caixas de mudança no corredor, chaves e calculadora no piso frio, luz de fim de tarde, sem pessoas

O 302 que ficou ocupado até agosto

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"Comprei o apartamento em fevereiro e só entrei nele em agosto, com o morador antigo assistindo televisão na minha sala esse tempo todo", disse a fisioterapeuta Nádia Caroline Bortoluzzi na portaria do Edifício Solar das Palmeiras, na Rua Dom Aquino, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia em que o oficial de justiça abriu a porta para ela.

Quem arremata imóvel em leilão de banco quase sempre pergunta quanto tempo leva para tirar o antigo morador. Existe uma segunda pergunta, que rende dinheiro e quase nunca aparece na conversa: quanto o antigo morador deve por cada mês que passou lá dentro depois que o imóvel deixou de ser dele.

A resposta tem número fechado em lei. O artigo 37-A da Lei 9.514, de 1997, manda o devedor fiduciante pagar taxa de ocupação de 1% do valor do imóvel por mês ou fração, contada do dia em que o banco consolidou a propriedade em nome próprio até o dia em que o novo dono foi imitido na posse.

Três palavras do texto carregam o peso todo. "Por mês ou fração" significa que um único dia de ocupação dentro do mês vale o 1% cheio. "Consolidação" marca o instante em que a propriedade passou para o credor no registro de imóveis, muito antes do leilão. E "sucessores" estende o crédito a quem arrematou, porque o arrematante sucede o banco na titularidade do bem.

O valor de referência do 1% não é o preço pago no leilão nem a dívida do financiamento. A lei aponta para o valor do imóvel fixado no contrato de alienação fiduciária, corrigido pelo índice contratual, o mesmo que serve de piso no primeiro leilão. Apartamento com valor contratual de R$ 392.000 gera taxa de R$ 3.920 por mês de ocupação.

Bancos grandes costumam abrir mão da cobrança: executar taxa contra quem acabou de perder a casa dá trabalho processual e má publicidade. O crédito, porém, não evapora por desinteresse do banco: ele segue existindo e acompanha o imóvel até o arrematante, que pode cobrá-lo no mesmo pedido de imissão na posse.

O apartamento 302 do Solar das Palmeiras mostra quanto esse crédito esquecido vale quando alguém resolve pedir.

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I  Edital do Dia

O apartamento 302 e os sete meses de posse alheia

O artigo 37-A cobra 1% do valor do imóvel por mês, e sete meses viraram R$ 27.440 de crédito.

Apartamento de 78 m² privativos, dois quartos, uma vaga coberta, oitavo pavimento do Edifício Solar das Palmeiras, Rua Dom Aquino, bairro Centro, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, matrícula 63.918 do segundo registro de imóveis da comarca. Piso frio, sacada fechada com vidro, condomínio de R$ 620 mensais, valor do imóvel fixado no contrato de financiamento em R$ 392.000.

Ocupado ou Livre? Ocupado pelo devedor fiduciante, o técnico em refrigeração Ademir Fontoura Lisboa, que morava no apartamento com a mulher e uma filha desde a entrega do prédio.

Ademir Fontoura Lisboa financiou o apartamento por alienação fiduciária e parou de pagar as parcelas depois de perder o contrato de manutenção que sustentava a oficina dele. O banco credor intimou pelo cartório de registro de imóveis, abriu os quinze dias de purgação da mora e, sem pagamento, consolidou a propriedade em nome próprio em 12 de janeiro de 2026. A partir daquele dia, quem morava ali morava em imóvel de outra pessoa.

O primeiro leilão saiu deserto em março, com piso de R$ 392.000. No segundo, realizado em 18 de maio de 2026, a fisioterapeuta Nádia Caroline Bortoluzzi arrematou por R$ 268.000, valor equivalente à dívida somada a encargos, comissão e tributos, que a lei fixa como lance mínimo da segunda praça.

A carta de arrematação foi registrada na matrícula em 9 de junho. Ademir Fontoura Lisboa continuou no apartamento, sem contrato e sem pagar nada, enquanto negociava prazo por mensagem com a corretora do banco.

O devedor fiduciante pagará ao credor fiduciário, ou a quem vier a sucedê-lo, a título de taxa de ocupação do imóvel, por mês ou fração, valor correspondente a um por cento do valor a que se refere o inciso VI do art. 24 desta Lei, computado e exigível desde a data da consolidação da propriedade fiduciária no patrimônio do credor fiduciário até a data em que este, ou seus sucessores, vier a ser imitido na posse do imóvel.

Brasil, Lei 9.514 de 20 de novembro de 1997, artigo 37-A, com a redação da Lei 13.465 de 2017

Nádia Caroline Bortoluzzi protocolou pedido de imissão na posse em 22 de junho e acrescentou ao pedido a cobrança da taxa de ocupação desde a consolidação. O juízo da 3ª Vara Cível de Campo Grande deferiu a imissão em decisão liminar, com prazo de trinta dias para desocupação voluntária, e reservou a discussão do valor da taxa para a fase de cumprimento.

O oficial de justiça imitiu a arrematante na posse em 3 de agosto de 2026. Da consolidação em 12 de janeiro até aquela manhã correram seis meses e vinte e dois dias, que a regra do "mês ou fração" transforma em sete meses cheios de taxa.

Sete parcelas de R$ 3.920 somam R$ 27.440. Ademir Fontoura Lisboa contestou o cálculo alegando que a contagem deveria começar no registro da carta de arrematação, em junho, o que reduziria a conta a R$ 7.840. O juízo rejeitou o argumento apontando o texto expresso da lei, que manda contar da consolidação e não da sucessão, e homologou os R$ 27.440.

Sem patrimônio penhorável, Ademir Fontoura Lisboa propôs acordo de R$ 11.760, correspondentes a três parcelas, pagos em espécie com dinheiro de rescisão trabalhista. Nádia Caroline Bortoluzzi aceitou e deu quitação sobre o restante, cálculo que ela explicou pela conta do próprio advogado: a execução dos R$ 15.680 remanescentes custaria mais em honorários e tempo do que a chance real de receber.

 
 

II  A Conta da Chave

R$ 3.920 por mês e o desconto que virou dinheiro vivo

A taxa de ocupação transforma o tempo de espera em crédito com valor fixado antes da briga, o que muda a matemática de quem arremata imóvel ainda ocupado pelo antigo dono.

O apartamento 302 custou R$ 268.000 de lance. A comissão do leiloeiro, cinco por cento, somou R$ 13.400 e foi paga em guia separada no dia seguinte ao encerramento da praça.

O imposto de transmissão de Campo Grande incidiu à alíquota de dois por cento sobre a base de cálculo da prefeitura, R$ 392.000, e a guia saiu em R$ 7.840. O registro da carta de arrematação na matrícula custou R$ 4.360 pela tabela do cartório sul-mato-grossense.

A conta do apartamento 302, item por item:

Valor do imóvel fixado no contrato de financiamentoR$ 392.000
Lance vencedor do segundo leilãoR$ 268.000
Comissão do leiloeiro, cinco por centoR$ 13.400
Imposto de transmissão sobre a base da prefeituraR$ 7.840
Registro da carta de arrematação na matrículaR$ 4.360
Honorários do advogado na imissão na posseR$ 7.500
Condomínio atrasado assumido pela arrematanteR$ 6.200
Pintura, troca de piso da cozinha e limpeza pesadaR$ 21.000
Vistoria técnica e certidões de cartórioR$ 860
Desembolso bruto da arrematanteR$ 329.160
Taxa de ocupação homologada, sete meses a R$ 3.920R$ 27.440
Taxa efetivamente recebida em acordoR$ 11.760
Desembolso líquido depois do acordoR$ 317.400

O condomínio atrasado entrou na conta porque a dívida de rateio acompanha a unidade e não a pessoa. O edital do banco informava R$ 6.200 em aberto, e o síndico condicionou a chave do portão eletrônico à quitação, negociada em parcela única com desconto de multa.

A taxa de ocupação e o aluguel de mercado medem coisas diferentes. Apartamento equivalente na Rua Dom Aquino alugava por R$ 1.850 mensais em agosto de 2026, menos da metade do R$ 3.920 da taxa. O legislador fixou 1% do valor do imóvel para tornar a permanência cara e apressar a saída, não para replicar o preço do aluguel.

Existe um limite prático conhecido por quem cobra: devedor fiduciante que perdeu o imóvel raramente tem patrimônio para honrar a taxa integral. O crédito funciona melhor como moeda de negociação do que como execução.

A cobrança precisa ser pedida. Juiz nenhum arbitra taxa de ocupação de ofício, e o pedido cumulado com a imissão na posse economiza uma ação autônoma, custas novas e outra citação.

O apartamento 302 foi alugado em 1º de setembro de 2026 para um casal de servidores estaduais, por R$ 1.850 mensais, contrato de trinta meses com reajuste anual e fiador.

 

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III  Garimpo Local

Cinco checagens antes de arrematar imóvel ocupado pelo devedor

1. Peça a matrícula atualizada e anote a data da averbação da consolidação. O relógio do 1% começa naquele dia, não no leilão nem no registro da sua carta, e a diferença costuma valer meses de taxa.

2. Confirme na matrícula qual valor do imóvel o contrato fixou. O 1% incide sobre o valor contratual corrigido, não sobre o seu lance, e imóvel arrematado abaixo do piso gera taxa proporcionalmente mais gorda.

3. Pergunte ao banco por escrito se houve renúncia ou acordo sobre a taxa. Renúncia formal do credor antes da carta de arrematação enfraquece a cobrança posterior, e a resposta escrita vale mais que a informação verbal da corretora.

4. Peça a taxa no pedido de imissão na posse. Ação separada custa custas novas, citação nova e meses extras, enquanto o pedido cumulado sai na mesma decisão.

5. Levante a capacidade de pagamento do ocupante antes de contar com o dinheiro. Consulta a processos, veículos e empresa em nome do devedor mostra se a taxa vira dinheiro ou vira papel, e define se vale executar ou negociar à vista.

As cinco checagens custam uma certidão de matrícula, uma consulta processual e um email ao banco. Elas convertem um crédito ignorado pela maioria dos arrematantes em desconto real sobre o preço pago.

O ocupante também merece a informação. Devedor fiduciante que descobre a taxa desocupa mais rápido, porque cada mês extra custa mais que o aluguel do bairro, e a saída voluntária encerra a contagem na entrega das chaves.

"Você faria a conta do 1% ao mês antes de dar o lance, sabendo que ela pode voltar como desconto?"

O apartamento 302 do Edifício Solar das Palmeiras custou R$ 317.400 líquidos à arrematante, valor que inclui os R$ 268.000 do lance, R$ 13.400 de comissão do leiloeiro, R$ 7.840 de imposto de transmissão calculado sobre a base da prefeitura, R$ 4.360 de registro da carta, R$ 7.500 de honorários na imissão na posse, R$ 6.200 de condomínio atrasado, R$ 21.000 de reforma e R$ 860 de vistoria e certidões, já descontados os R$ 11.760 de taxa de ocupação recebidos em acordo sobre os R$ 27.440 homologados, para um imóvel de valor contratual de R$ 392.000 e alugado por R$ 1.850 mensais (cotação de 19/09/2026).

 
 
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Quiz da edição

No caso do apartamento 302, quantos meses de taxa de ocupação o juízo homologou, contando pela regra do mês ou fração da consolidação até a imissão na posse?

A6 meses
B7 meses
C8 meses
D5 meses

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