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ED 042
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O arremate de R$ 96 mil que veio com o financiamento junto

O artigo 835 do CPC leva a leilão só os direitos do devedor, e quem arremata assume o saldo restante com o banco.

Carnê de financiamento e extrato de saldo devedor abertos sobre mesa de fórmica ao lado de um molho de chaves e de uma planta baixa dobrada, luz de manhã em sala vazia, sem pessoas

O 71 vendido com 112 parcelas em aberto

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A corretora de seguros Sílvia Marques Tavares avisou no balcão do leiloeiro, na Rua Ministro Coqueijo Costa, em Sorocaba, São Paulo, vinte minutos antes de a segunda praça abrir: está comprando a prestação, não a escritura, e só dá lance depois de ver o saldo devedor por escrito.

Existe um tipo de edital que não vende o imóvel. Vende os direitos aquisitivos do devedor, ou seja, aquilo que ele já pagou do financiamento somado ao direito de terminar de pagar e receber a escritura no fim. A propriedade continua com o banco até a última parcela, e a matrícula continua registrando a alienação fiduciária (a garantia que deixa o imóvel no nome do credor enquanto a dívida corre).

O artigo 835, inciso XII, do Código de Processo Civil autoriza a penhora desses direitos. Quando um credor executa uma dívida qualquer, um cheque devolvido, um aluguel atrasado, uma condenação trabalhista, e encontra o devedor morando em imóvel financiado, o juiz penhora o que existe de penhorável ali: a posição de mutuário, jamais a casa inteira.

Três consequências saem dessa penhora e mudam a conta de quem dá o lance. O arrematante sucede o devedor no contrato e passa a dever ao banco o saldo remanescente nas mesmas condições de prazo e juros. O banco precisa anuir com a cessão, porque o contrato de financiamento tem cláusula que proíbe transferência sem consentimento do credor. E as parcelas atrasadas até a arrematação seguem grudadas no contrato, não no devedor.

Quem lê o edital rápido enxerga um apartamento de quase R$ 400 mil saindo por menos de R$ 100 mil. Quem lê devagar soma o saldo devedor ao lance e descobre um desconto bem mais modesto, que ainda pode compensar quando o financiamento antigo carrega taxa melhor que a do mercado de hoje.

O caso do apartamento 71 do Edifício Portal do Ipê mostra a conta inteira, do lance ao carnê que a compradora herdou.

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I  Edital do Dia

O apartamento 71 e a posição de mutuário que foi a leilão

O artigo 835 do CPC penhora a posição de mutuário, e o lance de R$ 96.000 veio com R$ 214.300 de saldo devedor junto.

Apartamento de 82 m² privativos, três dormitórios, uma vaga descoberta, sétimo pavimento do Edifício Portal do Ipê, Rua Antônio Carlos Comitre, bairro Campolim, Sorocaba, São Paulo, matrícula 104.762 do segundo registro de imóveis da comarca. Piso laminado, cozinha planejada, condomínio de R$ 740 mensais, valor de mercado apurado pelo perito judicial em R$ 395.000.

Ocupado ou Livre? Ocupado pelo próprio executado, o metalúrgico Reinaldo Pacheco Vasconcelos, que financiou a unidade pelo Sistema Financeiro da Habitação em 2019 e continuou pagando as parcelas mesmo depois de perder a execução.

Reinaldo Pacheco Vasconcelos avalizou o empréstimo de uma transportadora que quebrou em 2023. O banco credor do empréstimo cobrou o aval em execução de título extrajudicial na 2ª Vara Cível de Sorocaba e não achou dinheiro em conta nem veículo em nome do avalista. Achou o apartamento 71, financiado e com propriedade em nome de outro banco, o da carteira habitacional.

O juízo determinou a penhora dos direitos aquisitivos em 4 de março de 2026, com base no artigo 835, inciso XII, e mandou intimar o banco financiador para informar o saldo devedor. A resposta do financiador fixou o número que passou a comandar o leilão inteiro: R$ 214.300 em aberto, com 112 parcelas de R$ 2.186 pela frente e quatro prestações vencidas.

A penhora observará, preferencialmente, a seguinte ordem: XII, direitos aquisitivos derivados de promessa de compra e venda e de alienação fiduciária em garantia.

Brasil, Lei 13.105 de 16 de março de 2015, Código de Processo Civil, artigo 835, inciso XII

O perito avaliou os direitos em R$ 180.000, resultado do valor de mercado do imóvel descontado o saldo devedor e mais um abatimento pela demora de conseguir a anuência do financiador. O edital estampou esse número como piso da primeira praça e repetiu, em três linhas destacadas, que o arrematante assumiria o financiamento.

A primeira praça, em 22 de junho de 2026, saiu deserta. Na segunda, realizada em 13 de julho de 2026, Sílvia Marques Tavares arrematou por R$ 96.000, equivalentes a 53% da avaliação, acima do patamar de 50% que o juízo havia fixado no edital como limite de preço vil.

O banco financiador manifestou anuência com a cessão em 5 de agosto, depois de analisar renda e cadastro da arrematante pelos mesmos critérios de um financiamento novo. Recusa ali teria derrubado a arrematação e devolvido o dinheiro, cenário que o edital previa em cláusula própria.

Reinaldo Pacheco Vasconcelos entregou as chaves em 20 de agosto de 2026, sem ação de imissão na posse, mediante acordo em que a arrematante assumiu o condomínio atrasado e liberou a família por trinta dias para a mudança. A carta de arrematação foi averbada na matrícula em 28 de agosto, com o registro da cessão de direitos e a manutenção da alienação fiduciária em favor do banco.

 
 

II  A Conta da Chave

R$ 96 mil de lance, R$ 214 mil de carnê e a margem que sobrou

O lance de um leilão de direitos aquisitivos mede só a entrada: o preço verdadeiro aparece quando o saldo devedor entra na mesma coluna.

Sílvia Marques Tavares pagou R$ 96.000 pelo lance e mais 5% de comissão do leiloeiro, R$ 4.800, em guia separada no dia seguinte à praça.

O imposto de transmissão de Sorocaba incidiu sobre a cessão de direitos à alíquota de 2%, calculada sobre o valor venal de referência da prefeitura, R$ 312.000, e a guia saiu em R$ 6.240. O registro da carta e da cessão na matrícula, com as certidões exigidas pelo cartório, custou R$ 3.140.

As quatro parcelas vencidas do financiamento, R$ 8.744, foram purgadas pela arrematante na semana da anuência, porque contrato em atraso não passa pela análise do banco. Condomínio e imposto predial atrasados somavam R$ 5.360 e vieram grudados na unidade, não na pessoa do executado.

A conta do apartamento 71, item por item:

Valor de mercado apurado pelo perito judicialR$ 395.000
Avaliação judicial dos direitos aquisitivosR$ 180.000
Lance vencedor da segunda praçaR$ 96.000
Comissão do leiloeiro, cinco por centoR$ 4.800
Imposto de transmissão sobre a cessão de direitosR$ 6.240
Registro da carta, cessão e certidõesR$ 3.140
Parcelas vencidas purgadas antes da anuênciaR$ 8.744
Condomínio e imposto predial atrasadosR$ 5.360
Honorários do advogado na habilitação e na cessãoR$ 6.000
Vistoria técnica e laudo de conservaçãoR$ 740
Desembolso à vista da arrematanteR$ 131.024
Saldo devedor assumido com o banco financiadorR$ 214.300
Parcelas restantes, 112 a R$ 2.186R$ 244.832
Custo nominal total da posiçãoR$ 375.856

A margem contra o valor de mercado ficou em R$ 19.144 nominais, pouco menos de 5%, e some se a compradora quitar as 112 parcelas até o fim sem antecipar nada. O ganho real mora na antecipação: o contrato de 2019 cobra juros abaixo da taxa oferecida em 2026, e amortização extra derruba o total pago bem antes do último boleto.

Três riscos moram nessa modalidade e têm preço. A recusa de anuência do banco desmancha o negócio e devolve o dinheiro depois de meses. O executado pode embargar a arrematação e segurar a averbação. E o contrato herdado vem com seguro habitacional cuja prestação sobe com a idade do novo mutuário.

Sílvia Marques Tavares amortizou R$ 40.000 em 10 de setembro de 2026, com dinheiro da venda de um terreno, e o banco recalculou o carnê para 84 parcelas de R$ 2.186 mantendo a prestação e cortando o prazo.

O apartamento 71 foi anunciado para locação em 15 de setembro de 2026 por R$ 2.450 mensais, valor que cobre a prestação, o condomínio e o imposto predial anual diluído.

 

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III  Garimpo Local

Seis conferências no edital de direitos aquisitivos

O edital de direitos aquisitivos esconde o preço verdadeiro em documentos que não vêm anexados: o extrato do saldo devedor, a cláusula de anuência e a planilha de parcelas vencidas. Conseguir os três antes da praça custa dois emails e uma certidão.

1. Peça ao juízo o extrato de saldo devedor atualizado que o financiador juntou aos autos. O número da avaliação costuma ter meses de idade, e cada mês de correção monetária engorda a dívida que vai junto com a chave.

2. Leia a cláusula de anuência do contrato original. Banco que exige análise de crédito do cessionário pode recusar a transferência, e o edital precisa dizer o que acontece com o seu dinheiro nesse caso.

3. Some lance, comissão, imposto, registro e saldo devedor antes de comparar com o valor de mercado. Comparar lance contra preço de imóvel pronto infla o desconto e esconde a margem real, que no apartamento 71 ficou em 5%.

4. Confira quantas prestações estão vencidas e quem vai purgá-las. Contrato em atraso trava a anuência, e as parcelas vencidas entram na sua conta à vista, não no carnê futuro.

5. Verifique a taxa de juros do contrato herdado contra a taxa oferecida hoje. Financiamento antigo com taxa baixa é o motivo econômico da compra; contrato caro transforma o desconto do lance em prejuízo parcelado.

6. Levante seguro habitacional, idade do mutuário original e prazo remanescente. A prestação recalculada pela sua idade pode subir, e prazo curto exige fôlego mensal que o lance barato disfarça.

As seis conferências cabem numa tarde de cartório e definem se o edital vende um desconto ou uma dívida disfarçada de oportunidade.

Vale dizer o que continua em aberto no apartamento 71. O executado ainda discute em embargos o valor da avaliação dos direitos, e uma decisão favorável a ele obrigaria a arrematante a complementar o preço ou a devolver a posição, hipótese que o juízo classificou como remota ao manter a arrematação em 2 de setembro de 2026.

"Você somaria o saldo devedor ao lance antes de chamar o edital de barganha?"

A posição de mutuário do apartamento 71 custou R$ 131.024 à vista em 13/09/2026, valor que inclui os R$ 96.000 do lance, R$ 4.800 de comissão do leiloeiro, R$ 6.240 de imposto de transmissão sobre a cessão, R$ 3.140 de registro e certidões, R$ 8.744 de parcelas purgadas, R$ 5.360 de condomínio e imposto predial atrasados, R$ 6.000 de honorários e R$ 740 de vistoria, mais 84 parcelas de R$ 2.186 que seguem no carnê depois da amortização, para um imóvel avaliado pelo perito em R$ 395.000 e anunciado para locação por R$ 2.450 mensais (cotação de 20/09/2026).

 
 
O Primeiro Arremate: oito passos, um por dia: As 12 linhas que decidem o lance, A matrícula e o que gruda no imóvel, A visita e o status de ocupação, As três praças e o teto escrito antes, A comissão e as taxas do edital, O imposto de transmissão e o registro, O condomínio atrasado e o síndico, A entrada na posse e a chave na mão. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Quando o juízo intimou o banco financiador do apartamento 71, qual saldo devedor ele informou?

AR$ 180.000
BR$ 244.832
CR$ 214.300
DR$ 131.024

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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