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O galpão que os credores decidiram vender

A metalúrgica de Caxias do Sul está em recuperação judicial, e o artigo 60 entrega o galpão sem as dívidas da empresa.

Galpão industrial fechado com portão de chapa e pátio vazio, sem pessoas

O galpão da Forqueta, em Caxias do Sul

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"Quero ler a ata antes de olhar o telhado", disse Marcelo Tonet Bressan à advogada Renata Pezzi Gasparin, no estacionamento do galpão da Forqueta, em Caxias do Sul, com o edital debaixo do braço.

Marcelo fabrica esquadrias de alumínio havia dezenove anos e tinha estourado o espaço do pavilhão alugado onde trabalhava. Procurava um prédio industrial próprio, com pé-direito alto e pátio para caminhão.

O galpão da Forqueta pertencia à Metalúrgica Forqueta Ltda., uma fabricante de peças para implementos agrícolas. A empresa estava em recuperação judicial (o processo em que a devedora continua funcionando enquanto negocia as dívidas com os credores sob controle do juiz).

A metalúrgica devia R$ 38 milhões a bancos, fornecedores e ex-funcionários. Mesmo assim, o edital oferecia o prédio sem nenhuma dessas dívidas grudadas nele.

A explicação estava no plano de recuperação. Os credores tinham votado a venda do galpão como unidade produtiva isolada (a parte da empresa separada do resto para ser vendida sozinha), e a Lei 11.101 protege quem compra uma unidade assim.

Marcelo já tinha visto imóvel de empresa quebrada em leilão e sabia que a regra da falência era outra. Ali a metalúrgica seguia viva, com setenta empregados e o forno ligado no pavilhão de trás.

Daí o pedido da ata. Numa execução comum, o imóvel vai a leilão porque um juiz mandou penhorar. Na recuperação, o galpão só vai a leilão porque a maioria dos credores votou a favor e o juiz confirmou o voto.

Renata tinha duas pastas no carro. Uma trazia a ata da assembleia geral de credores (a reunião em que os credores votam o plano) de 12/03/2026. A outra, a decisão de 17/04/2026 que homologou o plano (a decisão do juiz que o aprova e o torna obrigatório).

O edital repetia o preço mínimo e a data do leilão eletrônico, marcado para 15/10/2026. A autorização para vender estava nas duas pastas.

Marcelo queria saber três pontos: se a ata descrevia o mesmo galpão do edital, se a decisão do juiz podia cair num recurso e quanto custaria a chave com as dívidas da metalúrgica fora da conta.

Segue o galpão da Forqueta pela matrícula, a conta do preço mínimo com os custos da arrematação, e os quatro papéis que autorizam uma venda dentro da recuperação.

Continue lendo ↓

I  Edital do Dia

O prédio que o plano separou da fábrica

O galpão da metalúrgica sai sem as dívidas dela, porque a venda nasceu no plano votado pelos credores.

Galpão industrial de 2.400 m² de construção em terreno de 5.000 m², bairro Forqueta, Caxias do Sul, matrícula 58.912 do 2º Registro de Imóveis, pé-direito de 9 metros, doca para duas carretas, construção de 2004. Preço mínimo de R$ 6.200.000, leilão eletrônico em 15/10/2026, processo de recuperação judicial da Metalúrgica Forqueta Ltda. na vara empresarial de Caxias do Sul.

Ocupado ou Livre? Livre. A metalúrgica concentrou a produção no pavilhão menor, do fundo do terreno vizinho, e esvaziou o galpão em 2025. O plano obriga a empresa a entregar as chaves em até 30 dias depois do pagamento.

A crise da Metalúrgica Forqueta começou com a queda de encomendas de implementos agrícolas em 2023. A empresa pediu recuperação judicial em junho de 2024, com dívida de R$ 38 milhões espalhada entre quatro bancos, cerca de 120 fornecedores e 64 ex-funcionários demitidos no corte.

O plano apresentado pela metalúrgica previa pagar os credores com a produção dos anos seguintes e com a venda de ativos que a fábrica menor já não usava. O item 7.3 do plano criou a UPI Galpão Forqueta, com a matrícula, a área e o preço mínimo.

Esse item atende o artigo 60 da Lei 11.101, de 2005. Quando o plano aprovado prevê a venda de uma unidade produtiva isolada, o juiz manda realizar a alienação (a venda judicial) pelas modalidades do artigo 142: leilão, processo competitivo organizado ou outra forma aprovada no plano.

O objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor de qualquer natureza, incluídas, mas não exclusivamente, as de natureza ambiental, regulatória, administrativa, penal, anticorrupção, tributária e trabalhista.

Brasil, Lei 11.101, artigo 60, parágrafo único, 2005 (redação da Lei 14.112, de 2020)

A proteção foi contestada no Supremo Tribunal Federal. Na ADI 3934 (ação direta de inconstitucionalidade, o processo que questiona uma lei), julgada em 2009 com relatoria do ministro Ricardo Lewandowski, o plenário manteve a regra que livra o comprador das dívidas trabalhistas da vendedora.

A mesma proteção tem limite. O parágrafo único manda observar o § 1º do artigo 141: a regra não vale se o comprador for sócio da devedora, parente de sócio até o quarto grau ou alguém que aja em nome dela para esconder a venda.

Marcelo não tinha vínculo com a metalúrgica. Renata conferiu o contrato social da Forqueta, que lista três sócios da família Dall'Agnol, e nenhum sobrenome batia com o dele ou com o da mulher.

A ata de 12/03/2026 mostrou o voto por classe. Os credores trabalhistas aprovaram o plano pela maioria das pessoas presentes, e as classes de bancos e de fornecedores, pela maioria do valor dos créditos presentes, como pede o artigo 45.

Um banco votou contra e depois recorreu da homologação. O recurso ainda corria no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul na última semana de setembro, e a seção III conta o que ele muda para quem arremata.

 
 

II  A Conta da Chave

A dívida de R$ 38 milhões que fica na fábrica

O comprador paga R$ 6.958.000 pelo galpão pronto para uso, e nenhum centavo dos R$ 38 milhões da metalúrgica entra nessa conta.

A proteção cobre as dívidas que mais assustam em imóvel de empresa. A matrícula registrava duas hipotecas em favor de um banco, e a prefeitura cobrava R$ 410.000 de IPTU atrasado do galpão, lançados de 2022 a 2025.

As duas hipotecas saem com a venda. O banco credor recebe pelo plano, na ordem que a assembleia aprovou, e o juiz manda cancelar os registros na matrícula depois do pagamento.

O IPTU atrasado também fica com a metalúrgica. O Código Tributário Nacional, no artigo 133, § 1º, inciso II, incluído pela Lei Complementar 118 de 2005, afasta a responsabilidade do comprador de filial ou unidade produtiva isolada vendida em recuperação judicial.

A regra muda quando a compra corre por fora do plano. Se Marcelo fechasse negócio direto com os sócios, sem autorização judicial, a venda esbarraria no artigo 66, que proíbe a devedora de vender bens do ativo permanente sem reconhecimento do juiz ou previsão no plano.

Nessa hipótese a venda pode ser declarada ineficaz, e o comprador fica sem a proteção do artigo 60. O IPTU de R$ 410.000 e as ações trabalhistas dos 64 ex-funcionários voltariam a ameaçar o prédio.

O edital de 15/10/2026 fixa comissão de 5% para o leiloeiro, paga pelo arrematante, e pagamento à vista em até 24 horas. Renata reservou 3% para o ITBI (o imposto municipal de transmissão do imóvel) e R$ 22.000 para registrar a carta de arrematação.

Um engenheiro vistoriou o galpão. A cobertura de telha metálica tinha trechos corroídos perto das calhas, e o orçamento de troca e vedação ficou em R$ 240.000.

Para comparar, ele ouviu o corretor industrial Ivan Zanella, que negocia prédios na região da Forqueta. Galpões do mesmo padrão tinham sido vendidos em 2026 por cerca de R$ 3.300 o metro quadrado construído, o que dá R$ 7.920.000 para os 2.400 m².

A conta do galpão pelo preço mínimo, item por item:

Preço mínimo da UPI Galpão ForquetaR$ 6.200.000
Comissão do leiloeiro, 5%R$ 310.000
Reserva de ITBI, 3%R$ 186.000
Registro da carta de arremataçãoR$ 22.000
Troca e vedação da coberturaR$ 240.000
Custo total do galpão prontoR$ 6.958.000
Galpão equivalente no mercado da regiãoR$ 7.920.000
Dívidas da metalúrgica herdadas pelo compradorR$ 0

A diferença contra o mercado fica em R$ 962.000, ou 12,1%. Ela só existe porque o prédio chega limpo: com o IPTU e as hipotecas na conta, a economia viraria prejuízo.

Marcelo tem R$ 4,5 milhões em caixa e financiaria o restante com o banco da fábrica de esquadrias. A carta de crédito saiu com limite de R$ 2,6 milhões, suficiente para o lance mínimo e as despesas.

 

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III  Garimpo Local

Quatro papéis que autorizam a venda

O edital anuncia a venda, e quem a autoriza são os credores e o juiz. Os passos abaixo valem para qualquer imóvel oferecido dentro de uma recuperação judicial.

1. Leia a ata da assembleia de credores. Confira se o plano aprovado descreve o imóvel pela matrícula, com área e preço mínimo. Unidade produtiva isolada citada de forma vaga no plano abre discussão sobre o que foi vendido.

2. Leia a decisão que homologou o plano. Ela confirma o voto dos credores e manda cumprir o plano. Procure no andamento se alguém interpôs agravo de instrumento (o recurso contra decisão do juiz, julgado pelo tribunal) e se o relator deu efeito suspensivo (a ordem que paralisa a decisão até o julgamento).

3. Compare o edital com o plano. Modalidade, preço mínimo, forma de pagamento e prazo de entrega das chaves têm de bater com o item do plano. Edital que foge do plano pode ser anulado a pedido de qualquer credor.

4. Confira quem está comprando. O § 1º do artigo 141 tira a proteção de sócio, parente de sócio até o quarto grau e representante da devedora. Vale também para empresa em que um deles aparece no quadro societário.

Renata seguiu os quatro papéis no processo da Forqueta. O item 7.3 do plano trazia a matrícula 58.912 e o preço mínimo de R$ 6.200.000, e o edital repetia os dois valores sem alteração.

O segundo papel mostrou o agravo do banco que votou contra. O relator do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul negou o efeito suspensivo, e a homologação segue valendo enquanto o recurso não é julgado.

O julgamento do agravo não tinha data marcada até 26/09/2026. Ninguém consegue prever se ele sai antes do leilão, e Renata avisou Marcelo desse risco sem rodeio.

A lei cobre boa parte dele. O artigo 74 da Lei 11.101 diz que, se a recuperação virar falência, as vendas feitas durante a recuperação na forma da lei presumem-se válidas.

Marcelo decidiu dar lance no preço mínimo em 15/10/2026. Se aparecer concorrente, o limite dele é R$ 6.600.000, valor em que a diferença contra o mercado ainda passa de R$ 500.000.

"Você pediria a ata da assembleia antes de dar lance num imóvel de empresa em recuperação?"

Arrematado no preço mínimo, o galpão da Forqueta custaria a Marcelo Tonet Bressan R$ 6.958.000, somando lance de R$ 6.200.000, comissão de R$ 310.000, ITBI de R$ 186.000, registro de R$ 22.000 e cobertura de R$ 240.000, sem nenhuma dívida da metalúrgica, contra R$ 7.920.000 de um galpão equivalente na região (cotação de 26/09/2026).

 
 
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